17 de setembro de 2026

Antes das bolsas, a Hermès vestia cavalos

Fundada como uma oficina de arreios em Paris, em 1837, a maison transformou o ofício equestre em uma identidade que atravessa quase dois séculos


Muito antes de nomes como Birkin e Kelly se tornarem associados à Hermès, a maison francesa tinha outros clientes — e alguns deles tinham quatro patas. A história começou em Paris, em 1837, quando Thierry Hermès abriu uma oficina especializada na fabricação de arreios para cavalos na rue Basse-du-Rempart. Segundo a própria maison, o trabalho ganhou reconhecimento e, em 1867, foi premiado na Exposição Universal de Paris.


A ligação com o universo equestre não era apenas estética. Na segunda metade do século XIX, cavalos e carruagens faziam parte da mobilidade das elites europeias, e a Hermès desenvolveu seu negócio em torno desse cotidiano. Em 1880, Charles-Émile Hermès, filho do fundador, transferiu os ateliês para o número 24 da rue du Faubourg Saint-Honoré e abriu uma loja no endereço. Ali passaram a ser produzidos arreios e selas sob medida, e a reputação da empresa se espalhou pela Europa.


O endereço permanece ligado à maison até hoje, mas a chegada do automóvel e as mudanças no modo de vida no início do século XX exigiram novos produtos. Foi nesse período de transformação que o conhecimento acumulado no trabalho com couro começou a ultrapassar a selaria e a ganhar outras funções.


Um dos primeiros resultados dessa transição surgiu em 1900. O Haut à courroies, considerado pela própria Hermès sua primeira bolsa, foi criado para carregar botas e selas dos cavaleiros. Com a expansão dos automóveis, o modelo assumiu a função de bolsa de viagem e, mais de um século depois, continua no catálogo da maison em diferentes formatos.


A diversificação ganhou força nas décadas seguintes. Em 1922, sob a direção de Émile Hermès, a empresa ampliou a produção de artigos de couro. Em 1925 apareceu a primeira peça de prêt-à-porter; em 1927, a primeira joia; e, dez anos depois, o primeiro carré de seda. A Hermès passava, assim, de uma empresa ligada principalmente à montaria para uma maison com atuação em diferentes segmentos.


Os cavalos, porém, permaneceram como parte de sua identidade. Em 1945, uma imagem de carruagem puxada por cavalo, baseada em uma obra do pintor francês Alfred de Dreux, tornou-se o emblema da Hermès. Hoje, entre as áreas de atuação da empresa, continuam os artigos de couro e equitação, com selas, mantas, estribos e outros equipamentos equestres ainda comercializados pela marca.


Quase 190 anos depois da pequena oficina parisiense, portanto, a presença do cavalo nos produtos e símbolos da Hermès não é apenas uma referência visual ao passado. É um vestígio do negócio que existia antes de a maison entrar definitivamente para o universo da moda.