Nova referência separa as cópias dos cromossomos herdadas do pai e da mãe e alcança cerca de 99,4% do DNA de um indivíduo
Um novo avanço no mapeamento do DNA humano pode ampliar a capacidade dos cientistas de investigar algumas das regiões mais complexas do nosso material genético. Pesquisadores do consórcio internacional Telomere-to-Telomere (T2T) desenvolveram a reconstrução mais completa e precisa já produzida de um genoma humano diploide, contemplando separadamente os conjuntos de cromossomos herdados do pai e da mãe. O trabalho foi publicado na revista científica Cell.
A nova referência, chamada T2T-HG002v1.1, alcança aproximadamente 99,4% do genoma diploide de HG002, material genético de referência amplamente utilizado em pesquisas. Em relação aos padrões empregados anteriormente para avaliar sequenciamentos, foram incorporados cerca de 701 milhões de pares de bases dos autossomos e outros 217 milhões correspondentes aos cromossomos sexuais — mais de 900 milhões de letras de DNA adicionais.
O avanço é mais uma etapa de um trabalho iniciado há décadas. O Projeto Genoma Humano, concluído em 2003, deixou aproximadamente 8% da sequência sem resolução devido, entre outros fatores, à dificuldade de leitura de regiões altamente repetitivas. Em 2022, o consórcio T2T conseguiu preencher essas lacunas e apresentou a primeira sequência essencialmente completa de um genoma humano. A nova conquista vai além ao reconstruir, com alta precisão, as duas versões dos cromossomos de uma pessoa.
Essa distinção é importante porque seres humanos são diploides: recebemos um conjunto de cromossomos da mãe e outro do pai. As diferenças entre essas cópias carregam informações que podem ser relevantes para compreender variações genéticas. Métodos convencionais também encontram dificuldades em áreas duplicadas, repetitivas ou estruturalmente complexas do DNA, deixando parte dessas variações mais difícil de analisar.
A expectativa é que referências mais completas ajudem a aperfeiçoar pesquisas sobre variantes associadas a doenças e forneçam instrumentos mais precisos para o desenvolvimento da medicina genômica. O estudo, porém, estabelece sobretudo uma nova referência científica e tecnológica: sua incorporação rotineira ao diagnóstico clínico ainda depende de avanços em sequenciamento, interpretação e redução de custos.
Pesquisadores já trabalham justamente nessa próxima etapa. Em setembro, o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH) destinou US$ 2,9 milhões a um projeto da Universidade da Califórnia em Santa Cruz voltado ao desenvolvimento de métodos mais acessíveis e escaláveis para sequenciar genomas completos. O objetivo de longo prazo é aproximar esse nível de detalhamento da pesquisa clínica e da medicina personalizada.
